Relíquia modernista, por Boscardin Corsi

Sempre com desenhos puros e monolíticos, os móveis sob medida formam a base dos ambientes deste projeto em Curitiba, sem ressaltos. Essa lógica é quebrada com a escolha precisa do mobiliário solto, com apelo ao design brasileiro da atualidade em equilíbrio com as peças clássicas e de valor afetivo.

Foto: Eduardo Macarios

A vista da cidade e a iluminação natural invadindo o apartamento pelos panos de vidro do Edifício Continental, uma “relíquia modernista” de Curitiba, surpreendeu os arquitetos do Boscardin Corsi no primeiro contato com os espaços que seriam renovados por eles. “Existia um algo a mais entre aquelas paredes. A história do apartamento merecia ser recontada, já que o imóvel encontrava-se deteriorado naquele momento”, conta Ana Carolina Boscardin, sócia do escritório.

Foto: Eduardo Macarios

Com arquitetura moderna, a estrutura é externa ao edifício e a planta, livre — sem vigas e pilares internos, além de paredes sem função estrutural, dando, assim, liberdade criativa no posicionamento de divisórias. A partir daí, o time desenvolveu uma proposta para a reforma com a retomada dos conceitos modernistas: valorizar as relações com o meio externo, priorizar formas simples e geométricas livres de muitas ornamentações e manter os ambientes integrados e fluidos.

Foto: Eduardo Macarios

A planta do apartamento foi reformulada em relação ao modo como se encontrava: com divisórias em alvenaria, paredes curvas e degraus executados em madeira, e, então, resgatada para atender às necessidades funcionais e estéticas. “Buscando o equilíbrio entre o moderno e a atualização para a arquitetura contemporânea, o projeto cria uma base atemporal, com o uso de materiais novos e tecnologia, mescla revestimentos neutros e cria contraste entre peças de design brasileiro atuais com peças clássicas do design modernista”, revela Edgard Corsi, um dos autores da composição.

Foto: Eduardo Macarios

O conceito é de integração espacial, com a uniformidade de cores e materiais. O tom branco, o concreto, a madeira maciça Sucupira e o mármore italiano Carrara Gióia aparecem de forma repetida e contrastam-se entre si, sendo o branco, frio, e a madeira, quente e aconchegante. As peças de design autoral, como as poltronas Mad e Isa, de Jader Almeida, se destacam nesse cenário.

Foto: Eduardo Macarios

Pontos-chave
• São diferentes as tonalidades nos acabamentos da madeira e na tipologia e cores dos tecidos que compõem os cenários.
• A cristaleira, que fazia parte do acervo da família, foi ressignificada no ambiente social, conferindo ao projeto um resgate emocional junto a outras peças que também pertenciam aos moradores, como livros e adornos.
• A mesa de jantar Dinn, de Jader Almeida, une-se às cadeiras Helga, do Estudiobola, na composição contemporânea com obras de arte distribuídas de forma despojada, cerâmicas e o pendente Jabuticaba, de Ana Neute, uma peça suave, que, com suas esferas quebra a linearidade da mesa.

Foto: Eduardo Macarios

A sala íntima recebeu buffet, mesa Saarinen e as cadeiras DCW, de Charles e Ray Eames, que já pertenciam à moradora e formam, agora, uma nova composição, junto à luminária de parede 265, da Flos, articulada e direcionada, com design atemporal e industrial, idealizado por Paolo Rizzatto nos anos de 1960. “A arandela utiliza-se de metal pintado e influência Bauhaus para criar um objeto inesquecível”, conta o duo. Ao lado das peças assinadas, a marcenaria planejada materializa o home office que recebe a iluminação natural abundante no apartamento.

Foto: Eduardo Macarios

Os ambientes mantiveram-se na laje, sem rebaixo em gesso. Já o projeto de iluminação partiu da especificação de luminárias de sobrepor, pendentes, arandelas e colunas, algumas com iluminação indireta e outras direcionadas, articuladas. Após a renovação, “o apartamento respira a simplicidade e suavidade aprendida nas lições do modernismo e encanta com a originalidade dos ambientes contemporâneos”, acreditam Ana Carolina e Edgard. Os arquitetos uniram peças de design autoral a vasos, fotografias e o projeto luminotécnico assertivo.

O mármore Carrara foi eleito para a cozinha modernista, com layout separado do restante do projeto. Os tijolinhos de pedra natural atraem os olhares, destacando a composição junto ao móvel superior, com design limpo, em contraste com o armário em tons mais sóbrios.

Foto: Eduardo Macarios

A antessala íntima foi composta com algumas peças que já pertenciam aos moradores, como rack e poltrona e otomana Eames. Os arquitetos acrescentaram o sofá mais despojado à composição, que será palco dos momentos mais particulares da família.

Foto: Eduardo Macarios

Ana Carolina e Edgard criaram uma composição jovial para o quarto da filha, começando pelo papel de parede que remete a granilite. Na cama, o dossel repaginado agrega autenticidade ao cenário que tem a paisagem de Curitiba como moldura. Já em um dos banheiros, o segredo está nos detalhes: com o novo mármore Carrara, que preenche a bancada e as paredes, o espaço que pertence à suíte do casal foi renovado, sem rodapia e com extremo estilo.

Detalhando
1. A linguagem leve do projeto no quesito iluminação é ilustrada no corredor, que não possui nenhuma peça além dos balizadores, reforçando a atmosfera austera da proposta.

Foto: Eduardo Macarios

2. No quarto do casal, as prateleiras de luz reaparecem; desta vez, menores, criando pontos de iluminação que convidam ao relaxamento no ambiente íntimo.

Foto: Eduardo Macarios

3. A cadeira Zig Zag, de Gerrit Rietveld, dá boas-vindas a quem entra no apartamento, ilustrando, logo na entrada, a curadoria apurada de ícones do design de móveis que permeia a proposta.

Foto: Eduardo Macarios

4. O buffet assinado pelo designer Leandro Garcia aparece na sala de jantar, junto à cristaleira preta que foi ressignificada na proposta e, agora, armazena os livros e alguns objetos de decoração da família.

Foto: Eduardo Macarios

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