Olhar de autor, por Rodolfo Fontana

Pensando fora da caixa, Rodolfo Fontana reuniu as suas relíquias, heranças e memórias em um apartamento despojado, que nasceu da inquietude de um arquiteto autêntico.

Há mais de três décadas, Raul Seixas versava sobre a poética da inconclusão humana. Em uma de suas canções, na qual afirmava que a mudança de opinião era constante, pode ser interpretada pela famosa frase de Chico Buarque: “Nunca somos, sempre estamos”. Com toda a sua complexidade, a inconstância é um dos atributos que torna a vida tão fértil. Na ciência, na arquitetura e em outras áreas, ela incentiva descobertas — afinal, o movimento anda ao lado da inovação.

No projeto do seu próprio apartamento em Curitiba, o arquiteto Rodolfo Fontana transformou o seu emaranhado de ideias, dúvidas e bagagem referencial em seus aliados na criação de cenários ousados, jovens e que fogem do óbvio. Do layout à cartela de cores, o loft é a representação da personalidade do profissional e, ao mesmo tempo, a vitrine do seu trabalho. Para o resultado descontraído e moderno, Rodolfo integrou os ambientes a partir da quebra da maioria das paredes.

As recordações e memórias afetivas decoram a base black and white, como as pratarias e parte da sua coleção de obras de artes, herdadas de sua família. A exposição de relíquias criou uma galeria afetiva nas paredes que restaram, adicionando cores que dialogam com as pinceladas de rosé e verde turquesa — tons que o arquiteto escolheu para alguns móveis. O resultado é a simbiose entre o novo e o antigo, onde cada elemento é valorizado e parte essencial da proposta ímpar.

Foto: Matheus Kaplun

Desenhado pelo próprio arquiteto, o extenso tapete com listras diagonais demarca o living do apartamento. A fluidez e a leveza visual nascem, além da conexão entre os espaços sociais, da escolha por sofás funcionais com encostos removíveis. O painel em Mármore Nero Michelangelo continua em outros ambientes do projeto, elevando a estética refinada do apartamento.

Os detalhes enriquecem a proposta jovial e com um quê urbano, como os castiçais, esculturas e as obras de arte. Artistas como Gonçalo Ivo, Francisco Stockinger e André Mendes estão entre os nomes do acervo requintado. O mobiliário não sai atrás, com a mesa e a luminária Adobe, de Guilherme Wentz, complementando a composição. A mesa Trio, de Marcelo Ligieri, e a poltrona Soto, de Ronald Sasson, dialogam com a impotência do mármore — que cria um pano de fundo belo, potente e despojado.

Foto: Matheus Kaplun

O arquiteto removeu uma das suítes existentes para construir um home theater espaçoso e confortável. Com poucas paredes, o ambiente é delimitado pelo painel em preto que se inicia na cozinha e vai até o escritório.

Foto: Matheus Kaplun

É neste ambiente onde a ampla biblioteca do profissional, em marcenaria e laca preta, foi alocada e os títulos formam um pano de fundo autêntico. Nos painéis, se encontram a escultura Barquinho, de Sônia Menna Barreto, os Espelhos esféricos Selfish, de Bruno de carvalho, e a tela de Emiliano Di Cavalcanti.

Foto: Matheus Kaplun

PONTOS-CHAVE
• O sofá Alladro, da Century, é o protagonista do home theater. Em marsala e formato em L, o elemento traz contraste e jovialidade — assim como a cadeira Gucci e a sua estética vintage.
• A mesa Piscina, do Estúdio Rain, centraliza o ambiente. Nela, a escultura Guerreiro, de Francisco Stockinger, e a Triângulos, de Emanoel Araújo, agregam delicadeza. Mesas da Carbono Design e as poltronas Mios, da Artefacto, contribuem para o conforto da área.
• Com a retirada de paredes e a valorização do layout fluido, a área social do apartamento é
banhada pela iluminação e ventilação natural.

Foto: Matheus Kaplun

A sala de televisão e o escritório dialogam por meio de painéis que envelopam os dois ambientes e obras de arte pontuais — como a de Antonio Maia, Eduardo Sued e Poty Lazzarotto, escolhidas para o ambiente de criação. A seleção pela tela de Poty teve um porquê especial: a mesma foi dedicada ao avô do arquiteto, Dino Almeida, que era um grande amigo do artista. A paixão por obras de arte foi herdada justamente pelo familiar. “Puxei do meu avô que teve a maior pinacoteca privada do Paraná. Herdei muitos quadros e já tinha a minha coleção embrionária, o desafio foi alocar de forma agradável todos eles”, explica Rodolfo.

Exclusivo para o apartamento, o lustre da sala de jantar nasce de uma fotografia de Yuri Seródio, impressa em tela tensionada e retroiluminada. “O efeito da fotografia, que é a abóbada de um palácio alemão, cria profundidade no teto e surpreende a todos”, explica o arquiteto.

Foto: Matheus Kaplun

Um dos espaços conectados à sala de jantar é o espaço gourmet, com atributos funcionais e modernos, como as banquetas da Artefacto e a arandela de Tom Dixon. A churrasqueira recebeu uma base clean e branca, com portas tecnológicas que desaparecem visualmente.

O jantar também recebeu uma marcenaria em laca preta e branca, que se equilibra com a mesa redonda de Jacqueline Terpins. As cadeiras Jibóia, de Humberto da Mata, são o complemento ideal, agregando sofisticação e estilo. No espaço de desfrute das refeições é possível interagir com quem estiver no hall de entrada, onde uma das relíquias da família recebe a todos: o imponente Piano Essenfelder, da década de 1960.

O arquiteto desejava uma cozinha em conceito aberto, mas não exageradamente. Por isso, criou uma adega entre o ambiente e o hall de entrada — deixando os espaços conectados visualmente, mas delimitados. Os 140 rótulos parecem estar flutuando e a composição deixa o ambiente gastronômico mais criativo e requintado. Laca e mármore originam a cozinha, que ganhou as banquetas Iá Iá e Torno, assinadas por Gustavo Bittencourt. A coleção de pratos Bitossi e Gucci arrematam a proposta ousada.

Tons claros predominam na suíte máster, com um painel em Carvalho natural ebanizado que auxilia
no aconchego. Desenhado pelo arquiteto, o móvel da TV foi pensado para preservar a entrada de iluminação natural e a paisagem contemplativa da capital paranaense. Rodolfo elegeu para o seu recanto a cama Hug, de Maurício Bomfim, o abajur Copa, de Guilherme Wentz, e o tapete da Iza, feito à mão em Minas Gerais.

Foto: Matheus Kaplun

As obras de arte não ficaram de fora da área íntima, como mostra o protagonismo da tela de Paolo Ridolfi. O banheiro é revestido em Mármore Branco Paraná, onde a cortina em veludo verde contrasta com personalidade.

DETALHANDO

1. Para quem gosta de receber, é claro que uma varanda confortável não poderia ser deixada de lado no projeto. O ambiente tem poltronas e mesa lateral da Artefacto, mesa da Nardi e banco La Boheme, de Philippe Starck. O espaço também recebeu uma floreira projetada especialmente para a área em chapa metálica.

2. “Optei por maximizar o uso de todas as áreas, sem criar espaços que não seriam utilizados no dia a dia”, relata Rodolfo. Por isso, o apartamento exibe ambientes com sentido e valorizados em toda a sua extensão.

3. Uma composição de tecidos deixa o lavabo do escritório personalizado, criativo e único. A proposta ímpar recebeu também o Mármore Gris Armani no piso, espelho grandioso e acessórios brancos.

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