Pangeia de estilos

Uma breve volta ao mundo mostra que fronteiras geográficas não são limitantes para a arquitetura — do Brasil ao Oriente Médio, há pontos em comum que unem culturas e seus povos.

No projeto manauara do arquiteto belga radicado no Brasil, Laurent Troost, a escolha do telhado em aço corten não foi à toa: a partir de uma reinterpretação contemporânea dos telhados coloniais, a estrutura permite a criação de um colchão de ar que gera conforto térmico graças à ventilação cruzada em todos os ambientes, além das platibandas invertidas do lado do sol nascente e do sol poente que protegem dos raios solares equatoriais intensos.

O sentimento melancólico e nostálgico que conhecemos como “saudade” é universal, mas nem todas as línguas possuem uma palavra única para defini-lo. Apesar de existir em português e em outras línguas de origem latina, não existe tradução para o vocábulo em inglês, francês ou italiano, por exemplo. Há, no entanto, outras combinações que expressam a sensação causada pela falta de alguém ou algo. Uma coisa é certa: seja qual for a forma, será possível manifestar esse sentimento. Na arquitetura, há, assim como na linguagem, jeitos plurais de comunicar a cultura.

Com marcas tão representativas quanto os fonemas de uma língua, no universo arquitetônico, formas, volumes, materiais e cores são alguns dos elementos que criam os contornos dos cenários do cotidiano, revelando aspectos religiosos, climáticos, sociais, entre outras características físicas e simbólicas de cada lugar. Em um país de dimensões continentais, como o Brasil, atmosferas opostas se apresentam em curtos períodos. Uma viagem do litoral ao interior permite observar particularidades arquitetônicas locais: dos despojados e expansivos bangalôs ilhéus aos charmosos e intimistas chalés. De um país ou continente para o outro, então, as peculiaridades se tornam ainda mais nítidas.

Apesar das idiossincrasias, há paralelos que podem ser feitos quando o assunto é arquitetura. As diferenças aproximam — não somente pela fascinação por aquilo que é naturalmente exótico, mas pelas similaridades que surgem entre estéticas, aparentemente, distintas. Essa jornada pela pangeia de estilos começa em casa. É no Brasil — terra de Ruy Ohtake, Paulo Mendes da Rocha, Vilanova Artigas, entre tantos outros ícones da arquitetura e do design — que iniciamos uma viagem pelo ponto de convergência entre estilos geograficamente diversos, mas essencialmente conectados, a partir de elementos comuns em todo o globo: tapetes.

Brasil, iáiá: raízes, borogodó, identidade

“As cores vêm com tudo para a próxima estação, seja na moda, na arquitetura ou no design”, antecipa a designer de interiores Linda Cris Araújo.

Paulo Mendes da Rocha era defensor da relação entre a arquitetura e a natureza, assim como insistia que uma das principais responsabilidades do ofício de arquiteto é respeitá-la. Para o modernista, “o fundamental da arquitetura é resolver problemas humanos e tornar a natureza habitável, porque por si ela não é”. Essa é das marcas mais expressivas da arquitetura brasileira, seja pela necessidade de ajustar projetos aos ecossistemas, seja com a intenção de garantir ao entorno papel central nas composições.

Alguns ícones surgiram dessa simbiose. Roberto Burle Marx, por exemplo, foi um dos paisagistas que revelou para o mundo a riqueza da flora brasileira, inspirando a criação de diálogo entre vegetação nativa e arquitetura. Em um país com seis biomas e uma das maiores extensões de floresta tropical do planeta, não poderia ser diferente. Tão plural quanto a vegetação do Brasil, a formação do país teve influência de diversos povos. Essa miscigenação, assim como as grandes dimensões, é refletida na arquitetura, que bebeu de fontes, principalmente, europeias e africanas, além do DNA indígena que corre em suas veias arquitetônicas. Do pau a pique à arquitetura sacra, consagrada por artistas como Aleijadinho, a miscelânea canarinha encontrou a sua própria voz no modernismo após o movimento antropofágico.

Além de elementos simbólicos como ladrilhos hidráulicos, cobogós, as curvas de Oscar Niemeyer e o brutalismo da Escola Paulista, a tapeçaria produzida em solo nacional tem ganhado destaque, como mostra o mood criado pela designer Linda Cris Araújo, do Maraú Design Studio. Democrática, a paleta fria de azuis e cinzas do tapete brasileiro foi decisiva para a composição: o modelo Passagem 01, assinado por Júlia Vasconcellos e Matheus Barreto, além de provocar um efeito óptico de movimento, “casa com diferentes regiões do país, de casas na montanha, aquecidas por madeiras, couros e fibras naturais, a casas de praia, como o ponto de destaque sobre uma base neutra”. Na criação, o design contemporâneo com estampa geométrica do tapete é contraposto pelas curvas e pelo tecido acolhedor da poltrona Volare.

É fértil a relação entre arquitetura e natureza, como mostra o escritório Laurent Troost Architectures na construção da Casa Campinarana, em meio à Amazônia, onde os espaços externos e internos foram otimizados conforme os fatores climáticos, principalmente a incidência solar. A Floresta de Campina e seu solo argiloso avermelhado, tão presente nas paisagens da região, são refletidos nas escolhas feitas para o telhado, que contrastam com o brutalismo do piso e das paredes — outra característica moderna brasileira materializada no projeto arquitetônico.

Parte do emblemático Edifício Paraná, de Elgson Ribeiro Gomes, o projeto batizado de “Apartamento Azul” pela sua autora, a arquiteta Aline Roman, buscou, através do uso mínimo de mobiliário, exaltar os elementos arquitetônicos da edificação, como as esquadrias e suas venezianas azuis, o piso original em madeira e as janelas da cozinha que se abrem para leste, banhando o local com a luz dourada do sol da manhã. “Com intervenções nas alvenarias, as áreas social e de serviço se complementam, criando ventilação cruzada e um espaço que mira o infinito”, conta Aline. Na sala de jantar, a restauração das cadeiras desenhadas pelo arquiteto Rino Levi reforça a estética modernista brasileira na composição.

Seja na arte, na culinária ou na arquitetura, o movimento de explorar matérias-primas locais valoriza e fortalece a cultura regional. Foi essa a premissa do projeto assinado pelos arquitetos Paulo Melo e Paulo Andrade, que leva aço corten, telhados de taubilha e forros de fibra de dendê. Às margens do lote, o paisagismo emoldura a casa com ares de “bossa praiana”. A estética modernista é vista na seleção dos móveis, com assinaturas icônicas como a de Sergio Rodrigues.

Contornada pela Baía de Todos os Santos, a casa projetada pelo escritório M100 Arquitetura teve sua premissa em três conceitos: funcionalidade, estética e bem-estar. Cheio de alma e simbologias, o cenário foi criado para ser a casa da família na praia — um canto do paraíso baiano onde memórias afetuosas serão criadas. As riquezas naturais da região, como talisca de palha de dendê, pedras naturais, tapeçarias de materiais orgânicos, madeira e cerâmicas materializam os elementos da composição, junto a obras de artistas brasileiros.

Dolce far niente: passado e futuro, excelência, expressividade artística

O paisagista Paolo Pejrone celebra a biodiversidade local no projeto que tem como fio condutor a relação do ser humano com a natureza.

Pensar na arquitetura e no design italianos traz à mente duas palavras: excelência e tradição. De herança grego-romana, os anfiteatros, aquedutos, basílicas e arcos do triunfo narram a história da arquitetura clássica. Evidenciando os contrastes e a evolução estilística do país, a magnitude barroca, presente na arte sacra que emociona ao mesmo tempo em que demonstra poder, é contraposta pela rusticidade da estética toscana.

Agente de revoluções no mercado decorativo, a criação italiana é marcada por elegância, criatividade e talento. Falar em design italiano é falar de uma inventividade que perpassa diferentes expressões artísticas — de Antonio Vivaldi a Caravaggio —, incluindo o design de mobiliário. Não à toa, é palco do maior evento do setor no mundo. Essa ligação com a arte é um dos aspectos mais intrínsecos das peças que, apesar de serem produzidas na indústria para atender à alta demanda, não permitem que se perca a essência que vem de berço.

Mais de 900 anos de história estão registrados na arquitetura em estilo românico de Parma, na Itália. Ao norte, a casa projetada pelo arquiteto Carlo Ratti Associati cria um contraste de gerações que destoa do classicismo urbano: construída em torno de uma árvore de dez metros de altura chamada Alma, foi concebida a partir de novas formas de fundir arquitetura, elementos naturais e soluções tecnológicas avançadas. Assim como nos projetos brasileiros, a criação italiana incorpora a vegetação ao espaço interno, conduzindo a arquitetura no ritmo da natureza.

A região italiana de Marche foi o cenário do projeto elaborado pelo escritório Gardini Gibertini Architects. A partir de uma estrutura de concreto armado, os arquitetos equilibraram a rigidez do material com o aquecimento da madeira natural de nogal que dá vida aos móveis desenhados por eles. Os contrastes que marcam a proposta não param por aí: apesar da parte interna tomar partido de uma arquitetura contemporânea, o local explorou as colunas medievais na área externa — simbolizando passado e futuro.

Capital do design, Milão é cosmopolita, sofisticada e inspiradora não só para arquitetos, como para os amantes da moda. A cidade foi o pano de fundo da transformação de um antigo escritório em um espaço residencial com estilo vintage: um ambiente moderno e autêntico, que toma partido da estrutura do imóvel e da combinação de materiais para criar cenários inspiradores. A arquitetura clássica milanesa foi resgatada a partir do uso do granilite no piso, junto à madeira e aos ladrilhos que combinam elegantemente tons de verde e amarelo.

Hygge: minimalismo, aconchego, monocromia

“A composição em tons crus harmoniza elementos de referências estéticas quase opostas”, descreve o arquiteto Gabriel Bordin. “A poltrona Palma tem um desenho futurista, já a textura lisa do couro contrasta com a rugosidade e o trabalho do tapete kilim. Os contrastes sutis das texturas e seus estilos equilibram o arranjo”.

O estilo escandinavo surge a partir de uma perspectiva de mundo. O conjunto estético que abrange Dinamarca, a Suécia e Noruega foi exportado como uma forma de viver com simplicidade, mas não somente na composição dos cenários do cotidiano: a ideia é manter a leveza no estilo de vida. A arquitetura, portanto, reflete essa premissa de “menos é mais”. Não à toa, o estilo contemporâneo tem diversos elementos em comum com o escandinavo. Em uma sociedade pautada pelo consumo, é preciso transcender o excesso para alcançar a felicidade — e, teoricamente, o design de interiores nórdico se aproxima desse objetivo. Nesse sentido, a palavra-chave é desapego.

Por ser uma região com poucas horas de iluminação solar diária, há uma grande valorização da entrada de luz natural nos espaços internos. Junto às grandes aberturas, entram as luminárias minimalistas e pontualmente dispostas para reforçar o aconchego dos lares escandinavos. Silhuetas elegantes e linhas retas guiam o design, assim como cores claras e materiais em sua essência, como madeira, se fazem presentes nas propostas que não costuma abusar de objetos decorativos. Na contramão de tendências efêmeras, o tempo deixa de ser um inimigo para se tornar um aliado. “Há um tempo estamos usando bastante a referência do Japandi, que capta essência do minimalismo japonês em conjunto com o escandinavo. Ambos estilos adotam materiais e tonalidades naturais, decoração sem excessos, mistura de linhas mais sóbrias e modernas com objetos e móveis antigos”, conta. Para Gabriel, no escandinavo a seleção dos objetos tem um viés afetivo, enquanto no japandi costuma ter um aspecto mais elementar e funcional, além de trazer elementos da natureza para dentro do ambiente, como plantas imponentes que se tornam chave da composição.

Dividido em três áreas, o projeto revela um movimento contemporâneo de cozinhas de estar ao reunir todas as funções sociais das novas configurações do espaço. Além da proposta para momentos coletivos, há núcleos para relaxar, meditar e trabalhar. Já a suíte vem emoldurada pela caixa revestida de madeira Tauari. A treliça delimita espaços, sem impedir a passagem da luz — assim, há abundância de luminosidade natural em toda a extensão.

Equilíbrio estético a partir de diferentes referências

Moderno e com alto-relevo, o Kilim eleito pelos arquitetos Franciano Valente e Maick Rocha, da TETO Arquitetura Unificada, é feito artesanalmente na Índia.

“Trazer referências estéticas de fora é desafiador, quando pensamos ser necessário ter coerência, funcionalidade e, obviamente, em como será executado”, revelam os arquitetos Franciano Valente e Maick Rocha, da TETO Arquitetura Unificada, sobre a combinação de diferentes estéticas em projetos arquitetônicos ou de interiores. Por isso, o duo parte do pressuposto de que em todos os projetos existe um ponto de destaque e outros pontos que o complementam, garantindo que tenham a devida importância. “Trazemos sempre tons sutis ou em uma mesma linha de cores, mesmo com texturas e formas diferentes e, em seguida, algo que de fato se destaque no espaço. Não necessariamente precisa ser um único elemento. Quando alguns desses pre requisitos não atendem, trazemos então detalhes que o fazem ser diferente.”

O mood entre tapeçaria e design de mobiliário feita pelos arquitetos ilustra essa premissa. “Optamos por uma composição que buscasse sobriedade e elegância com um toque de sensualidade. Os tons monocromáticos do tapete trazem linearidade nas linhas sutis em contraste com a cor clara, que confere textura à peça e traz conforto e aconchego”, explicam. “Em contraponto, o banco Cilindros, também linear e com os pés com a mesma sutileza das linhas do tapete, sustenta toda a peça com um traço fino e delicado, que mesmo com um aspecto robusto e revestido em couro natural, que traz uma certa frieza, torna-se sensual e agradável aos olhos com suas curvas arredondadas.”

A escolha de pintar todo o teto em preto traz ao pé-direito alto a sensação de maior acolhimento e intimidade, no projeto assinado pelo escritório Flipê Arquitetura. “A iluminação acontece em réguas aparentes, resolvendo as demandas funcionais sem a necessidade de forro rebaixado em todo o ambiente”, contam as arquitetas.

Com autoria do escritório Flipê Arquitetura, a Casa Saturno — nome dado pelos clientes antes mesmo do início do projeto, quase como parte do briefing — traz a essência desse espaço como diretriz. “Representa a sobriedade espacial, o minimalismo funcional”, revelam as arquitetas Gabriela Mestriner e Natália Minas. Além de um conceito teórico, nasce dos desejos e sonhos dos proprietários, interpretados e traduzidos em arquitetura. Uma base sintética composta de branco, preto e madeira se desdobra em formas e texturas, criando um espaço complexo, que deriva de poucos elementos primários. Preto e branco são usados como ferramenta de projeto para valorizar e mimetizar elementos de acordo com as prioridades.

O apartamento urbano, também de autoria do Flipê Arquitetura, ganha nome e identidade por sua localização cosmopolita, representação do modo urbano de ser, ver e habitar. O projeto segue alinhado com o perfil prático do usuário citadino, que hoje consome menos e habita espaços menores. O minimalismo representa também a forma com que o cliente vive: menos bagagem, menos informação, mais leve: características que dialogam com a essência do estilo escandinavo. A partir desse conceito surge a escolha de usar apenas duas cores, ambas neutras absolutas: ausência total de cor e a soma de todas elas. “Contrastando e vestindo o apartamento com polaridade e sobriedade”, conta o time de arquitetas.

Japandi: nórdico + oriental, instrospectivo, natural

“Siga seu instinto.” É a partir desse exercício interno que a arquiteta Priscilla Muller avalia a combinação de estilos e referências de diferentes origens em projetos arquitetônicos e de interiores. Para ela, nessa hora “entra o olhar do arquiteto e o que para ele é harmonioso”.

Leveza, naturalidade, despojamento: essas são algumas caraterísticas do estilo japandi, que bebe de diferentes fontes de inspiração para composições marcadas por uma sutileza que convida à contemplação. Ao combinar referências nórdicas e japonesas, são bem-vindos elementos como madeira, fibras naturais de bambu, vime e rattan, assim como cerâmica e outras matérias primas em suas formas essenciais.

Duas filosofias guiam o estilo japandi. A primeira é Wabi-Sabi, que representa a beleza da imperfeição. A partir de uma visão de mundo zen-budista, é centrada na aceitação da transitoriedade, partindo da concepção de que o belo é “imperfeito, impermanente e incompleto”. A ideia é acompanhar o ritmo das estações para criar uma casa aconchegante, ter um olhar mais consciente e simplificar o cotidiano para focar no que realmente importa.

O segundo conceito que guia a estética japandi é o Hygge: de origem dinamarquesa, propõee valorizar objetos, texturas e plantas que despertam sensações e ativam a memória afetiva, promovendo acolhimento e bem-estar. Elementos das duas culturas entram em sintonia em composições do estilo japandi. Assim como materiais naturais, tons claros estão presentes junto a tonalidades terrosas — na companhia de plantas e abundância de luz natural. Símbolos da estética japonesa, como luminárias de papel, agregam à veia oriental das composições. Ao ilustrar a sutileza do japandi, o mood criado pela arquiteta Priscilla Muller dialoga de forma orgânica e integrada à natureza e à arquitetura com o tapete de lã e viscose, design moderno e feito à mão na índia, junto à poltrona San Diego.

Suavidade marca a decoração de apartamento com poucas e boas peças de desenho orgânico, além de conforto tátil de acabamentos naturais, assinado pelo escritório Todos Arquitetura. Da união entre premissas da cultura oriental com a estética escandinava nasceu o projeto marcado por um minimalismo rico em texturas, com paleta clara e materiais naturais, em um dos lugares mais queridos pelos cariocas. A reforma começou de forma sustentável: o piso original de tábua corrida foi recuperado com lixamento e aplicação da mesma cera que trata assoalhos de demolição, em consonância com nova paleta voltada para o off-white.

A escolha de mobiliário solto demonstra precisão na curadoria. Peças de Guilherme Wentz estão acompanhadas por cerâmicas do Estúdio Heloísa Galvão, esculturas trazidas de viagens ao Delta do Parnaíba e à Ilha do Ferro, acessórios do Estúdio Rain e mais — tudo emoldurado por cores que caminham entre branco, bege, pontos de verde e muitos padrões de madeira. “O clima praiano, as muitas peças de design nacional e a paleta suave reforçam a referência de casa bem brasileira. Um refúgio japandioca — mistura do japonês com escandinavo e uma pitada carioca”, brinca Maurício Arruda, sócio da Todos.

Observar, sentir e criar

Para Juliana Loffi, o exercício de viajar pelo próprio país tem sido surpreendente. “O nosso ecossistema e a nossa biodiversidade podem ser inseridos na arquitetura de uma maneira em que tudo se respeite e se complete.

Ousadia define o Killin Illusion Stripes em preto e bege, o pano de fundo da criação da arquiteta Juliana Loffi para demonstrar a autenticidade do estilo japandi. “Escolhemoso tapete por ter um viés com cores contemporâneas, fazendo uma releitura sofisticada de linguagens tradicionais em relação à forma. Gosto muito de elaborar produtos assim — às vezes, é algo já utilizado, um tecido ou uma trama, como seda, mas com uma estampa que remeta ao presente”, conta Juliana, que uniu arquitetura e moda na sua composição. “O tecido trouxe essa moda muito presente nas linhas geométricas e retas, dialogando com a composição.”

A veia criativa de Juliana a leva a diferentes destinos para buscar inspirações para seus projetos. Recentemente, esteve no pantanal — um lugar que expressa a pluralidade da flora e da fauna brasileiras. “Trago isso para a criação de estampas, por exemplo. Faço um safári, vejo diversidade de cores e texturas na natureza e trago isso para a arquitetura”, conclui a profissional, que vê na arquitetura do mundo um apelo expressivo no seu processo criativo.

Traços orgânicos e suaves se alinham à paleta monocromática do loft assinado pelas arquitetas Amanda Saback e Ana Luiza Veloso, da Traama Arquitetura. Dialogando com a estética japandi, o espaço traz equilíbrio e fluidez através de uma arquitetura que transborda conforto e calmaria. O conceito é de retorno às origens, ao básico, ao essencial, aos materiais e às formas que contestam o desordenamento de ideias do cotidiano. As linhas sutilmente leves, quase fugazes, abraçam a paleta monocromática.

“O ambiente valoriza elementos usados historicamente nas construções da ancestralidade”, revela o duo. As escolhas de revestimentos e paletas de cores, feitas cuidadosamente pelas arquitetas, estão todas embasadas em areia, argila e materiais minerais, muito utilizados como componentes importantes nas construções com tijolos de adobe.

Alma persa: mosaico e arabescos, religiosidades, simbologia

“O verde da natureza e o concreto da obra arquitetônica dialogam com o tapete Kashmar Zirkhaki em tons vivos e quentes, trazendo aconchego e um ponto de vibração”, descreve Claudia Machado, do escritório Arquitetare, sobre a composição que mostra a força do design iraniano em projetos locais. “Temos a capacidade de reunir diversas culturas, histórias e estórias, transformando toda essa bagagem em um conceito único a cada projeto, a cada persona.”

A tapeçaria persa é milenar. Passadas de geração a geração, as técnicas evoluíram sem perder a essência e a atemporalidade que marcam sua estética. Além de resistir às amarras do tempo, o tapete persa é versátil: está presente em projetos que revisitam o clássico e em propostas modernas. Os desenhos evidenciam a ancestralidade, a origem, as características de fauna e flora — uma riqueza cultural que é vista, também, na arquitetura iraniana.

O Irã, antiga Pérsia, é marcado por elementos arquitetônicos que revelam o forte viés religioso da população. Assim como a arquitetura barroca italiana, que envia através de toda a sua suntuosidade uma mensagem de poder, a arquitetura do Oriente Médio é, além de plural, marcada pela fé, com espaços reservados para a prática religiosa. Alguns elementos arquitetônicos das construções são as abóbadas monumentais e as cúpulas de pedra e tijolos. Também são comuns os mosaicos com desenhos geométricos nos pisos e janelas, colunas esguias, arcos em ferradura e cúpulas decoradas por esses mesmos mosaicos ou arabescos.

Os muxarabis, elementos arquitetônicos com origem na arquitetura árabe, são treliças que servem como fechamento para janelas e balcões, permitindo a ventilação enquanto mantêm a privacidade. Apesar das semelhanças com o cobogó, outro elemento vazado, não há relação direta entre eles: a versão brasileira foi criada pelos engenheiros Amadeu Oliveira Coimbra, Ernest August Boeckmann e Antônio de Góis, no século passado. Inicialmente produzido em cimento — e atualmente em uma gama de materiais —, o objetivo do cobogó, assim como a estrutura árabe, é facilitar a ventilação e a iluminação em climas tropicais. Esse é apenas um dos pontos de convergência entre as arquiteturas de cada país.

O projeto foi feito em palha natural da região, ferro e tijolo que, juntos, entram em unidade visual com o entorno. Para valorizar a cultura local, os detalhes das arandelas de parede e outros objetos decorativos foram definidos com base no artesanato local.

Assinada pelo escritório iraniano Afshin Khosravian and Associates, a casa Mayan integra um vilarejo turístico que tem aproximadamente 1,8 mil anos de história. A paisagem intocada inspirou a relação da arquitetura com o contexto. A ideia foi preservar ao máximo a identificação completa dos padrões indígenas, desde a morfologia da textura da aldeia histórica até a biodiversidade do entorno. Pórticos desempenham um papel fundamental na volumetria, proporcionando visibilidade e luz solar adequadas.

Modernidade e tradição em busca da atemporalidade

Com autoria do escritório iraniano Polsheer Architects, a reforma do hotel em uma das ruas mais antigas do país evidencia as características da arquitetura da região: abóbadas e desenhos geométricos, assim como mosaicos, nas paredes e no teto.

“Muito além do gosto e do ‘feeling’ na hora de projetar, há sempre algumas técnicas gerais para mesclar estilos diferentes”, defendem as arquitetas Natália Garofalo e Rafaela da Rocha, do Mútuo Studio. O duo gosta de pensar no resultado do ambiente projetado e, assim, tirar como partido a utilização de tons mais neutros de um estilo enquanto ressalta tons mais vibrantes de outro. “Essa característica depende muito da identificação do cliente e seu briefing. Cada morador é único e precisamos ter isso em mente na hora de projetar.”

As profissionais exploram em suas composições os muxarabis, um clássico da arquitetura árabe. Mergulhadas nesse repertório, elegeram o tapete Bakhtyar Antigo para o mood, junto à poltrona Bumbo, ilustrando as possibilidades de combinação da tradição persa com a inovação moderna. “As peças se destacam. O vermelho característico do tapete persa atrai nossos olhares, enquanto a forma orgânica da poltrona nos traz uma suavidade na medida certa para contrastar com a linearidade da tapeçaria, fazendo com que esses elementos tão únicos se unam em uma composição aconchegante e contemporânea.”

O projeto concebido pelo escritório iraniano Imagearchitects apostou em painéis curvos para a fachada da edificação com padrões paramétricos, apresentando aberturas que limitam a visibilidade da rua para os quartos, ao mesmo tempo em que melhoram a visibilidade para os espaços verdes laterais. “Esse controle visual induz uma sensação de segurança e relaxamento. Além das crenças e costumes iranianos, essa privacidade também se baseia nos princípios climáticos”, contam os arquitetos.

Histórias milenares narradas entre linhas

Com fundos quase sempre divididos em quadrados ou losangos e delimitados por bordas uniformes que ressaltam a ornamentação, os tapetes Bakhtiari são permeados por desenhos de animais e vegetação locais e, em muitos modelos, há “árvores da vida” repletas de simbolismos entre as costuras.

Mas, afinal, como se inspirar em traços dessa estética e se manter consonante com o DNA nacional em composições locais? Os arquitetos Jayme Bernardo, Glei Tomazi e Willyan Osti acreditam que, ao importar referências internacionais, o desafio é manter a fidelidade aos elementos que possibilitam o reconhecimento da origem, como no caso de tapetes. “Muitas vezes isto tem um laço muito forte com a arte e a tapeçaria faz parte deste segmento. Então, uma escolha de sucesso de um desenho ou material da composição é suficiente para atender a caracterização que buscamos.”

Para o trio, a tapeçaria é uma história milenar e está fortemente presente até hoje na composição de ambientes cheios de personalidade. Na composição eleita pelos arquitetos, com um Bakthiar Vintage, a escolha foi guiada por peças que propõem uma analogia entre o contemporâneo e o tradicional. “Formaram um perfeito pano de fundo que atrai atenção para a composição criativa que as peças foram dispostas.

Intercâmbios culturais enriquecem a arquitetura

A composição eleita por Luciana Olesko partiu da combinação do concreto com as cores sofisticadas da tapeçaria Mashhad. “Nossa escolha de elementos foi uma base neutra da arquitetura junto ao tapete com uma forte personalidade marcada pelos tons de azul, vermelho e verde.”

Criar exige que, de tempos em tempos, haja expansão dos horizontes. Novas referências, inspirações e provocações somam ao processo criativo. Viajar está, sem dúvidas, entre as atividades mais férteis para quem tem em vista inovar.

Para Luciana Olesko, do escritório Olesko & Lorusso Arquitetura, beber desses intercâmbios culturais é ter uma tela sempre em aberto. “Adoramos dar personalidade aos nossos projetos e entendemos que, muitas vezes, o toque vem de referências de lugares visitados pelos moradores, viagens e memórias afetivas. Gostamos de uma base arquitetônica neutra e atemporal que nos permite criar, ousar e misturar.

Ao beber de outras fontes, a arquiteta aposta em elementos-chave, como detalhes de uma trama de fibra natural típica, curvas características ou predominância de metal e brilhos. “Recentemente, criamos para um projeto comercial um painel metálico recortado a laser, inspirado nas linhas da arquitetura de Dubai após uma viagem à cidade.

As criações e edições realizadas pela Supernova Editora
se enquadram na Lei nº 9.610/98 (Lei sobre direitos autorais),
portanto, possuem proteção contra plágios e cópias.
Assim é vedado ao terceiro a reprodução de obra sem prévia autorização,
sendo que a sua utilização sem a concessão enseja reparação civil.